domingo, 21 de dezembro de 2014

A NOVA AMÉRICA E O NOVO TIPO DE EMPODERAMENTO

Odemar Leotti Lembremos a memória do passado da América. Sempre os imperialistas como espanhóis, portugueses, ingleses e norte-americanos contaram com o apoio de uma elite que sempre viveu ás custas da miséria de seu povo, traindo-os e que sempre colocou suas luxúrias acima dos interesses de uma verdadeira república democrática. Quando os capitalistas europeus e norte-americanos queriam impor seus interesses perversos para os povos sempre contaram com o apoio dessa casta nojenta e sua mídia para deturpar a notícia e manter-se nas suas luxúrias a custa de mentiras para manutenção do poder político. Ás todas as tentativas do povo tentar se organizar, se levantar por uma vida mais digna, sempre recebeu essa carga conjunta de repressão e morte por parte dos capitalistas apoiados por essa elite asquerosa. Vejam vocês amigos. isso foi assim nos séculos XVII, e XVIII. Com Impérios de Espanha e Portugal, foi assim no século XIX com o Império Inglês, foi assim a partir do século XX com o Império Americano. Nesse último houve apoio ao coronelismo, ao caudilhismo, quando o populismo não deu mais certo houve as ditaduras sangrentas que massacraram milhares e milhares de jovens guerreiros. Findo o ciclo das ditaduras que se derreteram em truculência e corrupção e entrega das riquezas nacionais aos gringos eis que resplandeceu na América um novo tipo de EMPODERAMENTO: aprendemos que tanto esquerda sectária tal como direita truculenta alimentavam-se de um mesmo discurso. Era o discurso de quanto mais miséria melhor no intento de alcance das condições objetivas, ligados que estavam a uma dialética histórica, hoje colocada em dúvida. Seria como resultado a revolta para um, e quanto mais miséria mais dependência eleitoreira seria bom para as elites usar e abusar do clientelismo a preço de uma miséria degradante e repulsiva.Ambos tinham algo em comum: entender que o PODER se localizava no Estado. Esse discurso é uma marca do pensamento ocidental desde dois milênios e meio e toma sua forma moderna principalmente com o pensamento hegeliano que elege esse espaço como o lugar da verdadeira liberdade, anulando com isso as forças centrífugas locais e suas formas temporais. Com isso destituem suas forças da potência individual e seus agenciamentos locais. Eles se davam no instante presente no agora e não num tempo da espécie humana que nunca salvou ninguém de passar fome. Agora lutam para ser felizes, pois o povo quer é agora e é agora que tem que haver distribuição da riqueza. Isso enfezou tanto a direita quanto a esquerda fossilizada que ainda não acordou do sonho iluminista. Surgiu uma nova esquerda que acredita que o povo pensa e que sabe seguir seu caminho que é ser feliz hoje, agora. Não quis mais seguir a estrada que tem origem e finalidade que fizeram dos seus corpos apenas recurso humano e utilidade. Por isso apoio todos que votaram contra os E.U.A. e elegeram DILMA PRESIDENTA contra essa elite e seus lacaios, apesar dos que infelizmente sendo empobrecidos materialmente também acabam sendo discursivamente pobres quando se deixam levar por seu canto da sereia e ficam ainda adorando o BEZERRO DE OURO traindo quem está do seu lado. Porém não mais fazemos como Moisés. Não subimos mais a montanha de nossa arrogância do saber, descemos as planícies e os guetos da fome e conversamos com o povo, Fiz isso na década de 80 ajudando a erguer a vontade do povo na luta por ocupação do espaço político. Ajudei a construir o PT e o crescimento e consolidação e amadurecimento do nosso projeto social e político içou a ira das elites que infelizmente ainda conta com apoio de ingênuos e levianos. (Odemar Leotti é mestre em história pela Unicamp e Doutor em história cultural pela UNESP-ASSIS. Atualmente é docente lotado no Departamento de História da UFMT-CUR.)

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

XIX SEMANA DE HISTÓRIA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO CAMPUS DE RONDONÓPOLIS CUR Departamento de história

XIX SEMANA DE HISTÓRIA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO CAMPUS DE RONDONÓPOLIS CUR Departamento de história A programação da nossa XIX Semana de História está fechada. Agora é hora de divulgarmos para nossos alunos o máximo possível!!! Vamos fazer na quarta-feira apresentação de banners para alunos graduandos, portanto aos alunos de PIBID, Iniciação Científica, Monografia em conclusão, Bolsistas de Extensão que quiserem apresentar conversaremos com o pessoal da informática para a impressão dos banners em padrão preto/branco. Acho importante nós divulgarmos para os alunos e os incentivarmos para apresentar. Na quinta-feira vamos fazer dois blocos de sessões de comunicações de pesquisa de graduados. Já temos algumas propostas do pessoal que se formou ano passado, levando em consideração que seria bom trazermos os egressos para um diálogo nessa fase de reestruturação curricular solicito que os colegas entrem em contato com seus ex-orientandos seja da graduação ou dos cursos de especialização para a partir daí aproveitarmos e estreitar laços. Conto com a colaboração de todos na divulgação! As inscrições se iniciam na segunda-feira dia 04/08 no departamento de história de forma gratuita. PROGRAMAÇÃO. Quarta 13/08 Quinta 14/08 Sexta 15/08 Cultura, Violência e Poder Priscila de Oliveira Xavier Scudder Naldson Ramos da Costa Tales Passos de Almeida Assujeitamentos e Subjetividades na Contemporaneidade Rubens Lacerda Clementino Nogueira de Souza Fausto Calaça Violência e Ocupação dos Espaços João Pedro Stedile Wanderlei Antônio Pignatti Plínio José Feix Apresentação de Banner (Graduandos) Apresentação de Trabalhos (Graduados) Vídeo-Debate Wanderlei Antônio Pignatti Flávio Vilas-Bôas Trovão Religiosidades e Política Vitale Joanoni Neto Adilson José Francisco Teobaldo Witter Ensino de História e Subjetividades Ana Paula Squinelo Jianni Langaro Alexandra Lima da Silva O MST e a Questão Agrária João Pedro Stedile

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

REPENSAR O ENSINO DA HISTÓRIA

ODEMAR LEOTTI Eu diria que me fizeram acreditar que as coisas se davam mesmo no passado. Aos poucos fui vendo suas fabricações se dando em outras épocas, em outras camadas “geomorfológicas” da produção de sentidos sobre o passado. Eram relatos que em sua inocência pareciam com um ramado de flores, ao serem trilhados porém causavam a vertigem da queda em um poço abandonado. Agora ao tentar ler sobre algum autor fico sem muitas armas, pois ele está falando de um passado tão distante dele que de forma tão paradoxal é ao mesmo tempo, tão próximo das práticas sociais de seu tempo. A dificuldade maior está em discernir esses dois tempos, ou melhor, esses dois espaços: o do passado e o momento em que se arquitetam a invenção desse passado. Os manuais que são enviados para a apreciação dos professores do ensino fundamental e médio, na maioria das vezes não colocam à vista de professores e alunos o lugar filosófico de sua produção. Chega como conteúdo e é imposto pela ementa de forma rígida pelos órgãos governamentais e muitas vezes submissamente obedecido de tal forma que passa a ser praticado como subserviência intelectual inconsciente de nossas instituições, quando faz com que o mundo abstrato predomine sobre o mundo empírico e mantenha um jogo destruidor da vida. Não haverá de ser crença a existência de um empirismo puro nem abstrações distancias das práticas cotidianas. Há sim a necessidade de transcendência, porém de forma que se baste ao seu momento na feitura do novo num tempo eterno e que retoma-se em novas eternidades. Porém não pode ser ajustada a um tempo moderno que transforma caminhos onde a vida se dá no percurso, como ambiente propício à experiência como forma de transformação. A modernidade transformou caminhos e percursos em meras estradas com origem e finalidade onde o percurso é vigiado de forma a não se conduzir para estradas vicinais. Transforma-se com isso as eternidades dos instantes em falta de foco no sentido final e estradas vicinais em desvios considerados como erros de percurso. O ensino de história em sua situação acadêmica igualmente em quase todos os estabelecimentos não conseguem ultrapassar esse espaço de poder que chega as instituições de ensino superior através das ementas. Essas são defendidas e muitas vezes aparecem nas reuniões de colegiados como reprimenda para sua aplicação. Assim, ao ser escamoteado a filosofia da história que está implícito no texto, os graduandos formam-se sem esse discernimento do conteúdo que lhe é apresentado pelo curso. Ao começar a trabalhar fica sem esse estranhamento do que é passado e do que é história e conseqüentemente de que o que é considerado como fato histórico nada mais é que produto de interpretação. Positivado passa a se configurar como sendo verdade e que acaba por silenciar as rupturas e suas descontinuidades. Assim a totalidade fica sendo o objetivo maior da história e as diferenças submetidas a uma narrativa ligada à filosofia da história.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A AMÉRICA LATINA E A DESCOLONIZAÇÃO DO SABER

Odemar Leotti A América Latina passa atualmente por um novo processo de ocupação capitalista que re-implantou novos dispositivos de combate a toda e qualquer forma de obstáculo ao seu avanço. Segundo os analistas políticos está havendo uma nova versão da Operação Condor, que uniu em um passado recente as ditaduras no massacre aos seus opositores, de forma comandada como sempre pelos grandes países capitalistas. Se observarmos bem notaremos que a maioria das pessoas estão totalmente alheias ao que está acontecendo no Paraguai no presente momento. Das pessoas que estão sendo informadas sobre o que está acontecendo nesse país, estão sendo atualizadas por uma forma midiática que faz do acontecimento outra revelação e estas pessoas acabam não conseguindo se abranger do grande emaranhado da totalidade que move a erupção desse acontecimento. Se voltarmos para acontecimentos em outros países da América e do Norte da África, poderemos vislumbrar alguma semelhança na forma como se dão esses acontecimentos. Sem querer entrar no mérito dos valores que possamos auferir a cada realidade singular de cada um desses países, podemos dar visibilidade à estratégia com que tem se desenvolvido a maioria desses acontecimentos, que poderíamos chamar de golpes políticos de um novo tipo do império neoliberal, se é que podemos fazer uso desses termos. Portanto entra nesse emaranhado uma história que é secularizada de formas diferentes dependendo das condições e da necessidade de novos dispositivos que garantam deslocamentos nas táticas de sua aplicação. Um exemplo da montagem desse emaranhado se deu na introdução a partir da década de 1950 da agricultura de grande produção em nível mundial que chamamos de agronegócio. Essa forma de produção agrícola se dá em escala global e movimenta bilhões de dólares e arrasando toda forma cultural e da rede alimentar que ali existia. Se nos apegarmos à história da invenção do mundo moderno vamos ter uma história de um modelo que desde o século XVII vem constituindo uma lógica da vida e dela uma natureza configurada, a partir do final do século XVIII e início do século XIX, numa economia política que se construiu no deslocamento do desejo humano e da sua necessidade como forma de analise da riqueza para a noção inventada que fixa o eixo da economia no trabalho para a produção que tem como verdade funcional o mercado mundial [cf. vídeo pequeno grão de areia, 2005, link na bibliografia]. Nesse ínterim é preciso ver que a ampliação dessa rede do mercado para se globalizar sempre teve que se haver com as inúmeras formas culturais, onde cada qual constituía sua concepção de se relacionar-se com as coisas. Nelas o trabalho tomava configurações que por não se deslocar de sua forma singular impedia o avanço do mundo liberal que se configurou a partir dos dispositivos criados pela empiricidades transcendental que é denominado por Foucault biopoder sendo implantado pela burguesia a partir de uma biopolítica que atravessava os corpos integrando-os ao organicismo nascido com o conhecimento autonomizado que emerge como ruptura no início do século XIX. Cada uma das culturas dispersas pelo planeta construía sua in-forma-ação que dava consistência e ânimo para o funcionamento de seus espaços culturais e aí moviam suas formas de lidar com a economia tendo seus próprios e fazendo funcionar uma rede alimentar que não se dava de forma fragmentada como o modelo ocidental e sim como um todo cultural. Essa pluralidade é invadida por essa forma de conhecimento que constituía um organismo voltado para uma unidade invisível que daria consistência e progresso à multiplicidade superficial tida como um “caos cosmos” e que precisava ser organizada. Tudo isso se dá pela análise da finitude do ser por uma leitura que se efetiva como busca de um regime de perfeição humana, como uma teologia que institui uma forma de governo que cuida da conduta humana e que foi denominada como pastorado e que se transformou na necessidade de govenamentalidade. Para que isso se ampliasse seria preciso suprimir essas formas locais ou mesmo redistribuí-la por uma maneira de ser que inserisse essa pluralidade de formas a uma unidade invisível maior que seria a disseminação de uma única forma de ser: a economia política voltada para o modelo liberal. Para tanto era preciso que o estado governasse menos e mais barato. Daí a necessidade de um poder disseminado nos micro espaços de tal maneira que atravessasse os corpos, constituindo aí uma govenamentalidade não como um poder maior do Estado, mas como um ser auto governamental. Foi a partir do século XIX, com a revolução industrial que os cuidados de si passam à produção do homem como um corpo atravessado por esse organicismo como um saber que positivado produzia poder. Esse espaço de poder legou ao liberalismo a possibilidade de produzir-se pela implantação do corpo atravessado pela política, ou seja, uma biopolítica. Alia-se a isso, o fato de que a constituição de uma rede mundial onde proliferasse essa forma global de ser dependia dos meios de comunicação. Aí é que entra a economia e seus tentáculos, ou seja, as empresas multinacionais e seus interesses. Para isso constitui-se nos diversos países ramificações nos meios midiáticos como formas globalizantes que produzissem em cada uma dessas formas singulares culturais, o homem moderno para que seu ser fosse atravessado por um saber e fizesse nele funcionar uma forma de poder, que se materializasse dando legitimidade ao projeto de globalização. Um exemplo disso é o fato gritante no Brasil, por exemplo, onde pouquíssimas famílias – e geralmente ligadas a políticos fisiologistas e profissionais - detém o domínio de todos os meios de quase toda a rede de comunicação. Esse monopólio é dissimulado por uma diluição em pequenas propriedades midiáticas locais que funcionaria como umas “quase laranjas”. Essa situação é dissimulada pela popularidade que esses profissionais da política detêm no meio do povo. Daí, de forma camuflada a rede de mensagens midiáticas globais a serviço do capitalismo desenfreado, garantem a expansão do modelo dessa economia política. O que vemos nos embates políticos são as denúncias constantes contra os meios de comunicação por suas formas comportamentais de parcialidade na maneira de conduzir suas informações e pelo lado dessa maquinaria a denuncia de atentados à liberdade de expressão, criando um paradoxo, pois seu modelo universalizado e centralizado é que produz uma mordaça na multiplicidade política e cultural. Agindo como preocupados com a segurança e em defesa moral da sociedade, esses meios passam grande parte de suas programações lidando com as mazelas do cotidiano, trabalhando com temas que vulgarizam a formação da personalidade das pessoas e atentando contra governos que sejam contra os objetivos que defendem. Alimentam a classe média com um tipo de literatura jornalística que criam verdadeiros homers, ou seja, homens serviçais e que se instituem numa arrogância pseudo-intelectual, operando em seus exercícios mentais um desserviço à possibilidade de vida da maioria, ao agirem como formadores de opiniões, pois seus lugares de fala, geralmente lhes garantem bastante poder de persuasão. Assim está montada a estratégia da devastação. Nos tempos atuais há uma confluência entre os ramos dos diversos poderes globais: se misturam meios de comunicação com fabricantes de produtos utilitários para a efetivação da produção em nível mundial. A Monsanto, por exemplo, domina mundialmente a produção de sementes e insumos agrícolas e domina também por sua vez a influência sobre os meios midiáticos. Anulando toda criatividade regional, as ramificações de repetidoras de rádios e tevês formam a rede de domínio nacional e esta rede fica conectada a uma rede mundial de informação (ou redistribuição da informação que é uma nova formação subjetivadora, para ser mais explícito) e a distribuição aos donatários locais se dá a “políticos profissionais” que incorporam a forma moderna de vassalidade em troca de pequenos poderes locais. Principalmente a rede televisiva, praticamente anula as produções artísticas e jornalistas locais mantendo a produção limitada aos grandes centros, ficando reduzidas a meras repetidoras de um saber que violenta as criações culturais e lingüísticas locais, afetando os costumes, cada vez mais globalizados. Como conseqüência dessa estratégia montada, segundo Mellem Adas até a década de 1950 ainda havia em funcionamento na África uma rede de cultura alimentar e que foi em grande parte destruída pelo avanço agrícola mundial. Segundo Melhem Adas, a fome é uma criação humana diretamente ligada ao modelo civilizatório e que a população mundial até a década de 1950, ainda estava em grande parte estabelecida no campo e mantinha uma rede de alimentação através se sua forma de troca. [Cf. ADAS, Melhem. 1988]. No caso brasileiro, esse processo se inicia na mesma década, quando o capitalismo invade o campo e a expulsão dos agricultores ressoa na luta pela reconquista de suas terras e que será o estopim das revoltas camponesas. Daí a não concretização das reformas de base do governo João Goulart que foi golpeado por uma ditadura militar com todo apoio dos meios de comunicação. Os militares golpistas não realizam a reforma agrária e inaugura o avanço capitalista para a fronteira oeste constituindo um grande êxodo de pessoas do sul do país e da faixa litorânea para o mega evento da colonização da Amazônia. Ao mesmo tempo destruiu e assassinou vários guerrilheiros que se instalavam nesse espaço como forma de resistência ao regime golpista civil e militar. [veja o vídeo sobre o tem na bibliografia]. Com isso o capitalismo vai se expandindo e expulsando o homem do campo constituindo grandes bolsões de miséria em municípios considerados ricos, porém inaugurando novos modelos de cidades. Hoje em dia qualquer cidade por menor que seja possui favelas e os crimes por latrocínio, roubos e furtos estão ligados ao consumo de drogas e esses à desagregação familiar. Enfim esse é um triste quadro que é notório a todos. A cada dia as matas estão sendo devastadas e as cabeceiras de afluentes de grandes bacias hidrográficas estão sendo desmanteladas e o agrotóxico invadindo as redes fluviais, o ar e entra no nosso organismo através dos alimentos altamente contaminados. Um exemplo alarmante é o fato das mulheres nos grandes pólos de produção de grãos, principalmente no município de Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso as mães gestantes estão impedidas de amamentar seus filhos, pois o leite materno já está contaminado por venenos letais à saúde do recém-nascido [veja o vídeo O veneno está na mesa, link na bibliografia]. Por outro lado, se pegarmos a árvore genealógica da maioria dos presidiários encontraremos nas gerações mais antigas a prova de que a maioria é descendente de antigos agricultores que foram expulsos do campo pela invasão capitalista no mundo rural: seja por grilagem de terra ou por impossibilidade de adequar sua produção para o mercado altamente competitivo. Portanto é a partir desse retrato cruel que pretendemos problematizar as formas com que se tem criticado esse modelo, se utilizando de ferramentas já produzidas pelo saber moderno que se constituiu no século XVII e que tomou o formato de um conhecimento provindo das ações humanas, mas que se deu dissolvendo a finitude do ser num modelo transcendental configurado como produto de sua própria história, quando se sua invenção como sujeito histórico. A seguir, voltamos nossos estudos para a forma como tudo se tornou o que é, ou seja, como se positivou os dispositivos discursivos para a construção do saber ocidental moderno 2 Nos últimos tempos, principalmente no século XX, os debates tinham como tema o desarranjo entre a ciência e a experiência. Esse paradoxo que acompanhou a relação entre a experiência e a ciência causou problemas que estão no cerne do debate sobre a situação de crise, tanto política quando econômica que tem atravessado a experiência moderna e está atualmente mais acentuada atualmente. Portanto torna-se importante estarmos revendo o lugar de leitura dos problemas que hoje atinge o estudo da crise do mundo ocidental. Para nos estabelecermos nesse problema sobre a crise, devemos fazer um histórico da crise das formas de ler a crise. Devemos voltar nosso foco para três momentos problemáticos da construção do saber moderno: o momento cartesiano ou período clássico como espaço da constituição do saber como representação; como segundo momento a transformação do saber ocidental como a autonomia do conhecimento no fim do século XVIII e início do século XIX, episódio em que se instaurou o conhecimento como produto da empiricidades e da filosofia transcendental que se positivou como fundo que daria unidade às multiplicidades advindas da emancipação dos saberes como produto da experiência da ação humana; e em terceiro lugar a forma tomada por esse saber no final do século XIX e início do século XX. Esse espaço de transformação do século XX pode ser organizado da seguinte maneira: nos anos de 1930, 1960 que desemboca em 1989 com a crise do modelo marxista e o desabamento do mundo soviético de um lado e a crise econômica dessa mesma década que emerge novamente como um fogo mal debelado ou mesmo impossível de conter suas chamas e que agora volta com toda sua força destrutiva sobre o mundo capitalista atual. Poderíamos acrescentar aí o surgimento dos países emergentes que tem seu modelo liberal voltado por um limite colocado pela figura do Estado sobre a voracidade do capitalismo e mantendo sua ação voltada para a ascendência socioeconômica dos setores mais empobrecidos e do outro lado o modelo chinês que se mescla de um socialismo que abre suas portas para o capital, mas mantendo o modelo do partido único. Esse interregno entre o fim do século XIX e final do século XX foi constituído como um cenário cruento onde homens, mulheres e crianças estavam todos fadados a serem marcados pela violência empreendida por ambos os modelos nascidos no século XIX. Dos campos de concentrações nazistas ao arquipélago Gulag fica a marca deixada por duas formas políticas teve de cada lado um resultado que foi de excesso de poder. O neoliberalismo com sua política de Estado mínimo coloca de lado o estado do bem estar social preconizado em seu começo e na outra ponta o estado torna-se o poder que se abate a todos aqueles que discordem com suas formas de um capitalismo de Estado. Nunca quando se falou tanto em liberdade e se construíram tantas prisões. Nunca quando se falou tanto em fraternidade se construíram tantas maquinas de destruição em massa, nunca quando se falou tanto em igualdade se construíram tantas desigualdades. O que se vê é um retrato de desolamento social e uma invasão cada vez mais voraz do capitalismo. As cadeias alimentares produzidas por múltiplas culturas e que garantiam a fixação do homem no campo e as culturas nativas com o mínimo de possibilidade do que ainda lhes restaram de funcionamento de seus espaços de imanência cultural, tudo isso vai se desfazendo como numa onda assustadora. Um dos grandes exemplos é a grande onda do agronegócio que na sua onda avassaladora vai desfazendo os espaços das comunidades. As pequenas cidades vão inchando de forma assustadora por um mecanismo guiado pelo êxodo rural que tem seu inicio acentuado na década de 50 e toma forma cada vez mais acelerada. Para produzir grãos sob a condição de um discurso da supressão da fome no mundo constrói-se um silencio quanto ás bocas que deles dependem como aparecem nas justificativas tão decantadas pela mídia numa cumplicidade aterrorizante com os mecanismos corrosivos dos espaços de imanência dos meios rurais. Daí os desmatamento sem fim e a destruição de mananciais aquáticos, de cabeceiras das quais dependem o ciclo das aguas, da destruição de milhões de micro-organismos, da fauna biológica e zoológica: são eles mesmos os que antes viviam nesses espaços e que de lá foram expulsos ou assassinados casos resistam; e os animais e plantas que são destruídos ou extintos. Agora vemos as pequenas cidades abarrotadas de gente cujas ferramentas culturais trazidas do campo de nada valem nas cidades que se tornaram dormitório desses banidos de suas formas culturais. O resultado é a grande proliferação de miseráveis, o crescimento de construções de prisões, hospitais abarrotados de flagelados dessa política perversa. Essa onde tem sua história de constituição e a sua crise ainda precisa ser explicada fora dos parâmetros tais quais predomina por aqueles que têm espaço na mídia para mostrarem: ou são trabalhos que se marcam pela linguagem científica que foi produzida pelo mesmo esquema que produziu a crise de ambos os modelos ou são comentários inofensivos que servem apenas ao cinismo dos verdugos da terra ou para entretenimentos dos que fogem do vazio depressivo de um ser que não mais serve à máquina engrenagem dessa economia política implantada. 3 .? Será que aí podemos entender a afirmação que tanto escândalo causou e ainda causa a afirmação Nietzschiana de que Deus morreu? Será que podemos entender que aí se produziu foi a figura do Homem que já nasceu dissolvido nessa construção empírica onde essas mesmas ações dos homens só teriam sentido em um regime de verdade? Será que esse mundo onde as generalizações sobreporiam as singularidades culturais não se naturaliza como o capitalismo liberal? Será não é daí mesmo que começa a nascer a oposição ao capitalismo? Será que não deformaram o que Marx, quando nos afirma que precisamos nos livrar do peso do fantasma do passado que age como um fantasma corroendo o cérebro dos homens? 4 Acho que agora podemos começar nosso estudo dos problemas concernentes ao inicio do século XX. Porém torna-se necessário viajarmos um pouco para um tempo anterior a esse momento. Para tanto devemos nos reportar ao fim do século XVIII e início do século XIX. Para que possamos problematizar esse saber que açambarcou de alguma forma quase todos os rincões onde pudesse haver traços animais, vegetais e minerais como forma de existência mundo. Saindo dos limites da ciência, voltamos nossos olhares para a arqueologia desses saberes. Em sua obra, As palavras e as coisas, Foucault no capítulo A prosa do mundo, podemos observar o período renascentista, momento discursivo em que havia um saber que privilegiava a relação do mundo como fruto da semelhança, espaço discursivo onde as palavras se misturavam ás coisas pela divinização do mundo. As palavras se misturavam com as coisas, cabia como busca decifrar os códigos internos a estas coisas. Essa forma de saber sofre no período clássico uma ruptura que dá lugar ao mundo como produto da representação. Cisão que se inicia no século XVII, arruinando o pensamento renascentista e o saber do mundo como similitudes. Ocupado pelo quadro das identidades, a nova configuração epistemológica constituía o mundo pela lógica do cálculo probabilista que deslocava a questão da ordem do mundo das coisas para a figura inventada como “conhecimento”. O signo do mundo não mais se aloja nas coisas, como queria os renascentistas, portanto não mais é Deus o provedor do mundo que através de sua divinização colocava o sentido no interior das coisas e que bastava decifrá-las. O sentido que ficou marcado por Foucault como cartesiano, deslocou-se para o conhecimento ordenado e sistematizado pela calculo matemático. As coisas passam a figurar numa ordem onde os signos perdendo seu valor absoluto passam a aparecer como séries em uma ordem sendo o sentido somente numa totalidade universal. 5 Por uma análise discursiva Seguindo a trilha da análise discursiva, podemos afirmar que não existiam vida, nem ciência da vida antes do final do século XVIII. Assim posto, o estudo sobre o homem deve ser redimensionado a partir de uma arqueologia do saber que constituiu o homem a partir do fim do século XVIII e o início do século XIX. No Brasil, temos a construção da primeira noção de história da recém-criada nação independente, configurada pela leitura de um naturalista. Ao mesmo tempo, observamos que a formação discursiva predominante nesse momento nos meios intelectuais europeus era da autonomia do conhecimento produzido no interior de si mesmo em detrimento de conhecimento clássico produzido a partir do sistema de representação, tido principalmente predominado pela via cartesiana. O acontecimento discursivo desse momento apontava para um conhecimento que se desdobrava a partir do seu próprio interior buscando nas ações dos homens no passado o lugar da construção dessa interioridade produtiva. Assim se deu no campo das ciências naturais, da análise da riqueza e no campo da linguagem. Rompia-se com a análise dos seres vivos e através da biologia constituía-se a vida não mais pelo caráter e sim pelo organicismo; não mais era a necessidade e o desejo humano que impulsiona a troca na análise das riquezas, mas sim o trabalho que passava e ter sua forma interiorizada, nascendo daí a produção voltada para a industrialização como novo motor do progresso humano e seu contraponto, habitando o mesmo espaço discursivo que se mantinha dentro dessa forma discursiva: dessa transformação nascem as interpretações que ficaram significadas como liberalismo e socialismo. A linguagem por sua vez deixa de buscar sua gênese na origem dos tempos primitivos e passa a ter como objeto da sua evolução no interior da própria linguagem, buscando daí as mutações no interior das palavras que se dariam pelo seu uso cotidiano. Enfim podemos observar que esse triedro que se constituiu como o espaço empírico da ação dos seres passa a se constituir o homem como possuidor de uma linguagem, de uma forma própria de vida e do trabalho como o grande motor da história. Há uma ruptura com forças exteriores abstratas e a ação do homem passa a ser o espaço da produção, ou surge um saber debaixo em contraponto a um saber metafísico. No caso do Brasil, no período que compôs boa parte do século XIX, houve uma forma ambígua e que se se digladiava no interior da construção da nação independente. É que o motor que impulsionaessa forma de constituição se deu de uma forma ainda híbrida entre o poder representativo onde forças sobrenaturais garantiam o poder do soberano e concomitante a isso já se vislumbrava a necessidade da constituição de uma nova soberania voltada para a construção da população como novo sujeito histórico na construção da nação independente. Porém o saber, antes do início do século XIX ainda era produto de uma forma de linguagem, onde se configurava um modelo de Estado considerado como despótico e se configura como poder na soberania do príncipe e a preocupação é com o regime imposto para o controle territorial. Para se manter nesse controle territorial mantém laços de poder a partir de certa prática de vassalidade. Nela adquire certo poder locais os senhores da terra. No caso do Brasil, ainda no século XIX, o poder monárquico se manifestou dando certos poderes a militares, que para que mantivesse o domínio imperial recebiam em troca grandes extensões de terras, dando início aí as relações senhoriais, guardando suas singularidades próprias ao caso brasileiro que é o foco da nossa pesquisa. É ainda guardando essa forma de domínio que se impregnará a forma com que a transformação do saber no ocidente se implantará no Brasil, e mais especificamente na forma em que se instaura na fronteira oeste do espaço nacional. No caso do Brasil, somente se dará a construção da forma de Estado, por um discurso de nacionalidade de forma efetiva no início do século XIX. Esse fato se efetiva quando da tentativa de construção de uma língua nacional como fruto de uma linguagem cuja evolução estava voltada para seu funcionamento interior, na busca da experiência cotidiana das falas, voltada para o interior como forma de produção de um conhecimento autônomo de onde se materializaria um valor nacional. Do “mesmo modo não há uma economia política porque, na ordem do saber, a produção não existe” antes do século XIX. [Foucault: 1999 p. 227]. Havia um domínio geral que era característico da época clássica, o da riqueza. “Nesse aspecto, podemos colocar em suspenso análises do passado que lhe colocam questões vindas de uma economia de tipo diferente, organizada, por exemplo, em torno da produção ou do trabalho” [ibid. p. 228]. Essa nova formação discursiva surgiria concomitante à tentativa de construção da nação após o movimento de independência e que irá se desenrolar durante todo o século XIX indo desembocar nas primeiras décadas do século XX. Portanto unir dois pontos nessa análise, ou seja, a constituição de um saber e a genealogia de um poder nos desloca de análises que partiria de signos como verdadeiros e entender que noções como: Estado, desenvolvimento, progresso e nação, organização, entre outras são produtos de interpretações, que produziram conceitos que esqueceram que o foram. Portanto a arqueologia não busca a origem verdadeira das coisas e sim os momentos em que são produzidas interpretações positivadas como verdades e que são tomadas como moedas de troca sem mais se atentar para suas efigies. Partimos do lugar de leitura que considera todos os signos ou cada conceito como produtos de interpretações que se positivaram como sendo verdades, para entender que a construção da nação brasileira e a figura do homem brasileiro, denominado no século XIX como “os nacionais”, termo que diferenciava os colonos das culturas nativas, nomeadas como sendo indígenas. Alusão nascida de um equívoco do marinheiro Colombo, mas que tomou conotações que criava uma hierarquia classificatória que criou com isso um código de sangue como marca da fundação da nação. Não estaremos, portanto fazendo uma retrospectiva do passado, se é que isso seja possível, conferindo “à análise das riquezas a unidade ulterior de uma economia política em vias de se constituir às apalpadelas” [ibid. 228]. O que podemos adiantar é que a nação moderna tal qual sonhavam seus protagonistas só se toma de alguma tentativa de efetividade quando o trabalho em sua conceituação moderna toma forma universalizada com sua força autônoma. A partir dessa ruptura no saber, ou seja, nesse momento discursivo que se deu no inicio do século XIX eis que torna possível que o homem brasileiro seja construído sob a marca desses signos que nada mais foram além de interpretações produzidas pelo surgimento do conhecimento em sua forma moderna.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

HISTÓRIA DA AMÉRICA VIVA



HISTÓRIA AMÉRICA

Odemar Leotti[1]


“. . . A mi solo me mataréis, pero mañana volveré y seré millones”
Tupac Katari

Crise dos paradigmas e a história
Quando iniciamos nosso curso, devemos pensar um pouco na crise das relações dos homens com a terra em que estão destinados a viver e de suas necessidades, conseqüentemente, de constituí-la como mundo[2]. Pensar isso requer que pensemos as formas que foram encontradas para significação da terra em mundo. Em cada contingência histórica, cada qual à sua maneira, e, em cada espaço onde os homens e mulheres se reuniram em grupo, foram criadas formas de vivências. Para tanto foi necessária a utilização da linguagem como forma de construções dos sentidos de mundo que teve como conseqüências a formação de comunidades pensantes e formadoras de modalidades diferentes de comunicações no tempo e no espaço. Para sua rememoração e continuidade de uma identidade cultural foi preciso em cada uma dessas culturas manter uma forma de mensagem para que através de suas fabulações fosse passado o saber vigente para a formação de novas gerações e com isso a manutenção da reprodução cultural de cada grupo cultural. Devemos saber que o radical sage vem do latin que quer dizer fábula. Logo mensagem seria a forma de passar para a frente as fábulas do entendimento de vida de cada comunidade cultural. Então seria bom pensarmos se ainda existem essa forma comunitária e se postitivo, como elas devem estar sofrendo para manter viva a chama cultural de cada uma de suas comunidades. Ao mesmo tempo devemos pensar nos nossos meios de comunicação e antes de tudo atentarmos para o fato de que essa palavra provém do que é comum a todos, ou seja, a fábula que nos faz entender como vivente, como pertencentes a alguma forma cultural. Se é assim então deveríamos procurar problematizar o papel dos meios de comunicação e ver se eles estão cumprindo o papel de passar para as próximas gerações os saberes anteriores de forma que possam manter nossa identidade e nos intrumentalizarmos com eles para produzir o novo a partir desses saberes, ou dessas fábulas, dessas sages. Então mensagem passa a ser uma coisa mais importante do que imaginam os senhores proprietários da grande imprensa ocidental, ou seja, utilizar seus meios de comunicar para o bem dos seus comuns.
Porém o mundo ocidental, ou seja, a forma cultural que prevaleceu na Europa provinda da cultura mediterrânica principalmente a cultura grega, nosso considerado “berço” cultural, tomou uma forma a partir do século IV que colocou em perigo a estabilidade das múltiplas formas de relações culturais existente, tanto internamente a essa cultura quanto às múltiplas formas de identidades culturais espalhadas pelo planeta. Obedecendo a uma forma unívoca e se inspirando em um ideal ascético, essa forma cultural teve no renascimento e depois no movimento ilustrado do século XVIII a produção de formas culturais que ao entrar no século XIX consolida-se com o movimento cientificista o total desarranjo cultural tanto internamente à Europa quanto sua proliferação desterradora por todo o recôndito da terra onde houvesse alguma forma cultural por mais tênue que pudesse ser.
Vendo o quadro como atualmente se encontra o mundo e principalmente nosso continente podem notar o quanto é preciso colocar em discussão a situação cultural e como no nosso caso debater o papel da historiografia com relação a tudo isto. Começamos esse estudo mostrando algumas preocupações atuais quanto ao papel da escrita e as formas como a comunicação se distanciou do seu papel de mensageiro cultural de cada povo e cada qual com sua escrita. Não devemos nos esquecer que apesar do modelo ocidental tentar destruir todas as formas culturais e com elas suas formas mensageiras, não ofereceram em troca outras maneiras de enunciações que formassem discursos proliferadores de condições salutares a cada cultura, nem à sua própria forma cultural (vida a persistência em destruir outras formas culturais, como no Iraque por exemplo).
O que vemos hoje são autocríticas do setor jornalístico de um lado e de outro lado vemos o ressurgimento de formas de luta dos povos de várias partes do mundo, juntando o que sobrou das suas culturas contaminadas com as formas culturais que foram obrigadas a se submeterem, que mesmo parecendo terem sido dizimadas, ou como queria a antropologia, entender que elas foram “aculturadas”, eis que aparecem como saberes um dia assujeitados e que atualmente surgem de forma insurrecionais. Com a crise do poder da escrita transcendental iluminista-platônica e de suas ramificações liberais e marxistas, o poder da escrita de cada cultura ressurge como que a busca de reencontro do mundo e quem sabe para todos nós.
Tendo experimentado, desde os tempos da conquista e de sua colonização, toda forma de tentativas de subordinação, essas culturas sempre tiveram seus interesses subestimados e colocados abaixo dos interesses de minorias de origem européia. Com isso resultou um quadro de destruição física e cultural de todos aqueles que tinham suas escritas como formas de sentido de vida. No século XIX, esses povos sofreram a assalto de duas formas contrapostas de libertação. De um lado o modelo liberal e de outro o modelo marxista. Presos a formas transcendentais de busca da essência humana, esses movimentos deixaram pouco espaço para as formas plurais de cada povo que existia por todo planeta. Porém, como afirma Deleuze, as relações imanentes se contaminam e formam uma outra escrita, cada forma cultural foi tecendo uma nova escrita com o que ficou delas emaranhando-se com as formações discursivas que formaram de seu cruzamento com outras formas também submetidas ao saber europeu e aos próprios discursos dos europeus. Se podemos dizer que com a gradativa destituição de suas formas comunitárias cada uma dessas cultuaras tiveram que exercitar-se num labor infinito no intuito de manutenção de seus valores culturais, por outro lado foram vítimas de meios de comunicação que nada tinha que ajudasse para a continuidade das formas múltiplas de relação com a natureza de cada uma das culturas que sofreram sob sua senda jornalística destruidora dos valores milenarmente constituídos e mantidos. Hoje o que vemos é uma série de autocríticas de agentes desses meios de comunicação, tal qual observamos no artigo de Luiz Gonzaga Motta[3].
Na sociedade ocidental contemporânea há uma hipertrofia da palavra, e o jornalismo é, pelo menos parcialmente, responsável por ela. O jornalismo vem continuamente se omitindo na denúncia do esvaziamento dos debates das grandes questões da sociedade e se modernizando pelo pior caminho, aquele do entretenimento vulgar. Jornais e revistas, tanto quanto o rádio e o telejornalismo, estão cada vez mais levianos, valorizando o banal, o prazer fácil e a superficialidade. Pior ainda, as reformas mais visíveis estimulam novas formas de imediatismo e de empirismo, que consolidam a incapacidade de nossa sociedade em expressar e debater em âmbitos mais coerentes e saudáveis as relações dos homens com outros homens e com a natureza.
Como nos fala o crítico literário franco-americano George Steiner, é por meio da palavra que o homem se libertou do grande silêncio da matéria, e para exercer o ¨ofício de homem¨ e dar consistência à vida é preciso construir uma gramática da esperança que afaste a barbárie que nos rodeia. Ou ainda, como complementa o antropólogo catalão Lluís Duch, a cultura ocidental entrou em uma crise do significado que a levou a uma ruptura da aliança entre palavras e mundo. Entramos em um ¨tempo posterior¨ da palavra em que a linguagem é limitada, empobrecedora da realidade pluriforme, redutora à mera facticidade, expressando cada vez menos a imensa capacidade do homem de criar, de imaginar fantasias, desejos e utopias. Esta é a crise à qual nós, jornalistas e estudiosos da comunicação jornalística, devemos de fato nos preocupar. A grande crise do silêncio contemporâneo, por mais que expressemos banalidades.

Lembrando o início de seu parágrafo, a afirmação de que “na sociedade ocidental contemporânea há uma hipertrofia da palavra”, poderíamos estar tendo a coragem de problematizarmos a forma historiográfica com que lidamos com o passado e tentar pensar se ela também não estaria hipertrofiando ou não a palavra que nos traz a memória do passado. Será que essa forma tradicional totalmente distanciada dos problemas atuais, não estaria causando hipertrofia nas formas de lidarmos com o presente e sua relação com o passado? Será que não estaríamos nos tornando obsoletos e inócuos como guardiões da memória e não seria isso o fato das crianças nas escolas não darem a mínima para o que o professor está ensinando em sala de aula? Será que a busca fora da escola de formas de entendimento do mundo, como é o exemplo do movimento Hip Hop, ou mesmo as escolas constituídas pelos movimentos indígenas na América espanhola, não resulta da distância entre as formas de vida que se colocam à frente de cada um e a forma tradicional de ensinar história? Fica para cada um mastigar esse insosso prato que a realidade nos oferece de forma amarga ou mesmo em nenhum prazer quanto a sabor. E por falar nisso a palavra saber provém da palavra sabor, como nos afirmou Roland Barthes. Então porque as palavras tomaram formas tão distantes da vida como forma de prazer e nos trouxeram formas violentas como resultado de suas características autoritárias e desencarnadas? É bom lembrar do texto de Antonin Artaud, de 1938, quando ele nos alerta para o seguinte:
Se, falta enxofre à nossa vida, quer dizer, se lhe falta uma magia constante, é porque nos apraz contemplar nossos atos, e nos perdermos em considerações sobre as formas sonhadas de nossos atos, ao invés de sermos impulsionados por eles. E esta é uma faculdade exclusivamente humana. Diria mesmo que é uma infecção do humano que nos estraga certas idéias que deveriam permanecer divinas, pois, longe de acreditar no sobrenatural, o divino inventado pelo homem, penso que foi a intervenção milenar do homem que acabou por nos corromper o divino. Todas nossas idéias sobre a vida têm de ser revistas numa época em que nada mais adere à vida. E esta penosa cisão é motivo para as coisas se vingarem, e a poesia não está mais entre nós e que quando não conseguimos encontrar mais nas coisas a vida, eis que ela reaparece, de repente, pelo lado mau das coisas; e nunca se viu tantos crimes, cuja gratuita estranheza só se explica por nossa impotência em possuir a vida. [4]


Será que isto não estaria acontecendo com nossa forma de trabalhar o conhecimento histórico. Será que o conhecimento é algo que já vem pronto ou ele deve ser fruto da construção de cada geração? Se é a primeira opção então devemos ficar preso a um mundo já inventado, no nosso caso, devemos passar o conteúdo da ementa sem estranhá-lo. Porém se acreditamos que devemos formar historiadores que produzam junto com seus estudantes conhecimentos que produzam vida na forma infinita do ser do instante precisamos por em questão os modelos que nos mostram conhecimento como se fossem as verdades absolutas e inquestionáveis. E olha que o referencial de tudo é a realidade triste que está se formando em termos de vida em nosso planeta. Uns morrem por não ter o que comer por terem sido impedidos de viverem em suas formas comunitárias anteriores e que ainda lutam para retomarem suas escritas, suas línguas, ou seja, o oceano de vida onde possam navegar, mergulhar e sentir uma salubridade de vida. Outros morrem tendo tudo dos outros na mão, mas se pegam como um pequeno rei Minos onde tudo que toca vira ouro e também morre da mesma maneira. O que presenciamos em nossos dias é a crise dos modelos ascéticos transcendentais e o ressurgimento de saberes que foram silenciados mas que não pararam de existir, mesmo em sua forma latente. Buscar o que nos foi colocado como conteúdo seria construir um caminho metodológico inspirado nos Annales, ou seja, fazer uma história problema. Problematizar o presente e aí sim ir ao passado. Não fazer do texto histórico um passado, mas sim uma construção, entre tantas, sobre o passado. Para isso propomos requisitar algumas dessas contingências históricas e fazer uma releitura da América a partir da experiências de cada uma das culturas escolhidas e de suas relações imanentes com os saberes dos colonizadores e procurar contribuir para uma discussão mais ampliada sobre a emergência de tantos nomes políticas ligados aos saberes indígenas ou fruto da condensação de tantas formas discursivas e da materialização do nosso tempo presente. Justifica-se esse procedimento pela preocupação em vermos esses acontecimentos serem rotulados por discursos que se proliferam por falta de análise mais séria ou por pura leviandade, como tem acontecido na grande imprensa, inclusive com rubrica de alguns de nossos queridos “historiadores” brasileiros. Ao trabalharem no limite do discurso do sujeito histórico, deixam de lembrar de ter mais cuidado em fazer uma leitura mais densa, como por exemplo o estudo dos movimentos sociais que já de experiência discursiva que foi e continua se montando e desmontando numa orquestração descontínua. Querer reduzir a análise ao discurso já desbotado tipo, “populista”, “esquerdista”, entre outros é colocar nossa profissão a serviço de destituição dos saberes assujeitados e pretensamente silenciados, pelo discurso da grande imprensa. Em nada contribui essas formas produzidas por historiadores de plantão com espaço na imprensa a serviço das elites que atrasam a livre autonomia dos povos.
Para tanto gostaríamos de trabalhar nosso curso, buscando as formas de lutas com as quais estamos testemunhando no momento e a partir da pesquisa sobre alguns desses movimentos, colocar como essas culturas se defrontaram com as várias fases de dominação empregadas no passado. Com isso trabalharemos o “conteúdo”, mas de forma viva e a partir de onde a vida ainda pulsa. Ou como afirma Foucault, uma história que deixe emergir a frêmita vida.

Do conteúdo programático e da busca do passado.
Ao trabalhar com conteúdo do ementário, queremos dar a ele a dignidade de sua atualidade e logicamente dar um princípio que o coloque na problematização dos temas atuais da América. Portanto os três momentos importantes da América, ou seja, período da chegada dos europeus, da assim chamada “conquista” e da colonização, dos movimentos de independência, e das experiências das tentativas de consolidação da experiência republicana liberal e das tentativas da implantação da proposta referenciada nos modelos do marxismo-leninismo ou do maoismo. Para tanto nos apoiaremos nas atualizações, ou seja, na realidade do vácuo deixado por essas experiências anteriores e das apropriações do passado histórico pelos movimentos indígenas do tempo presente. Para isso o curso estará organizado da seguinte maneira.

[1] Odemar Leotti tem Mestrado em História pela UNICAMP. Atualmente é professor efetivo da UFMT-Rondonopolis-MT.
Este curso pretende sair do lugar comum de uma história mecânica e obsoleta e deslocar-se para uma história onde o presente seja o foco para a problematização do passado. Portanto partirá da busca por nós (docente e acadêmicos), do estudo sobre os movimentos sociais emergentes na realidade presente da América. Faremos contato pela net com sites desses ou a serviço desses movimentos e tentaremos colocá-los a par de nossos estudos, procurando manter um elo entre nosso curso e os movimentos como troca de saberes. É uma experiência que busca inserir os acadêmicos a par da situação e quem sabe voltar os olhos para a realidade mais próxima deles e começar a fazer alguma coisa. Abraços e estarei mandando textos que produzirei durante o curso. Este texto que envio é o começo de um texto que se prolongará durante o curso e como resultado das leituras de textos e resultantes da pesquisa. Abraços e estamos na luta por uma história viva onde o sangue esteja pulsando. As veias da América não estão abertas, ela pulsam. Abraços do Odemar. Meu email é leotti.odemar@gmail.com em breve abriremos um blog do curso e enviarei o link para todos que queiram acompanhar a experiência.
[2] Este aspecto é estudado por Gianne Vattimo, em sua obra O fim da modernidade.
[3] Jornalista e professor de Comunicação da Universidade de Brasília, atualmente na Espanha para pós-doutorado.

[4] ARTAUD, Antonin. O teatro e seus duplos. São Paulo: Editora Max Limonad ltda, 1984.